Abra qualquer vídeo brasileiro sobre Tesouro Direto e cronometre quanto tempo leva até alguém dizer “renda passiva”. Raramente passa de noventa segundos. O argumento vem sempre pronto: o título com juros semestrais te paga a cada seis meses, o dinheiro cai na conta, você vê o retorno acontecendo. Não precisa esperar 2035 para ganhar alguma coisa. É concreto. É, segundo praticamente todo mundo, uma vantagem.
E a pergunta que sai disso é sempre a mesma: qual título paga o cupom mais alto? A NTN-F paga 10% ao ano. A NTN-B paga 6% ao ano acima do IPCA. Números maiores que os dos irmãos sem cupom, que não pagam nada até o vencimento. A conclusão parece se escrever sozinha.
A sabedoria convencional
Vale dizer o que o argumento pró-cupom tem de certo, porque ele não é bobagem.
Um título com juros semestrais devolve capital ao longo do caminho. Isso reduz a duration — a sensibilidade do preço a mudanças na taxa de juros. Se os juros dispararem e você precisar vender antes do vencimento, o título com cupom cai menos que o zero-coupon equivalente. Menos volatilidade na marcação a mercado, menos susto no extrato.
Ele também gera caixa sem exigir venda. Para quem vive do portfólio, isso não é detalhe: significa não ter que liquidar posição no pior momento possível — proteção real contra sequência de retornos.
E há a flexibilidade. Cupom na conta é dinheiro sem destino obrigatório. Se aparecer uma oportunidade melhor, você a compra. O zero-coupon te tranca.
Três argumentos legítimos. O problema não é nenhum deles. O problema é o que fica de fora.
O cupom não é uma taxa. É um preço.
Quando você compra uma NTN-F, o cupom de 10% ao ano não é o seu retorno. É uma característica fixa do papel, fixada pelo Tesouro na emissão, igual para todo mundo que comprar aquele título — hoje, ano que vem ou em 2031. O seu retorno é a taxa contratada, que é o que aparece na tela do Tesouro Direto no momento da compra, e que pode ser 11%, 13% ou 15% dependendo do dia.
Como duas coisas diferentes convivem? Pelo preço.
O título tem valor de face de R$ 1.000 e paga R$ 48,81 por semestre — sempre. Se o mercado quer 13% ao ano e o papel só paga 10%, ninguém compra por R$ 1.000. O preço cai até que aqueles R$ 48,81 semestrais mais os R$ 1.000 do vencimento entreguem exatamente 13% ao ano. Fazendo a conta, o preço é R$ 840,98. Isso é o deságio. Se o mercado quisesse 8%, o mesmo papel valeria mais que R$ 1.000 — ágio.
O cupom alto não te dá retorno maior. Ele te faz pagar mais caro pelo mesmo retorno.
O cupom não é quanto você ganha. É quando você recebe. E “quando” tem preço.
(Curiosidade que não muda nada no argumento: “cupom” é literal. Títulos antigos vinham em papel com retângulos destacáveis nas bordas — a cada semestre o portador cortava um com a tesoura e levava ao banco. Clipping coupons virou gíria de rentista em inglês por causa disso. Os retângulos sumiram; a palavra ficou.)
Você não trocou risco por segurança. Você trocou de risco.
O título com cupom tem uma duration mais curta. Isso é verdade e é sempre dito. O que quase nunca é dito é o outro lado.
Aquela taxa contratada de 13% que apareceu na tela? Você só a recebe de fato se reinvestir cada cupom a 13% ao ano até o vencimento. Está embutido na matemática do papel — é premissa, não promessa. Se a curva de juros ceder e você só conseguir reinvestir a 9%, o seu retorno realizado não é 13%. É menos. O título entregou o que prometeu; o mercado é que não te deixou recolocar o dinheiro no mesmo lugar. Isso é risco de reinvestimento, e ele não aparece em lugar nenhum da tela de compra.
Dez anos, R$ 10.000, taxa contratada hipotética de 13% ao ano nos dois papéis. A única diferença é o cupom. (“Selic” aqui é atalho: quem manda na taxa de reinvestimento de um papel de dez anos é a curva longa, que anda junto com a Selic sem ser a mesma coisa.)
| Cenário de reinvestimento | Zero-coupon (bruto) | Com cupom (bruto) |
|---|---|---|
| Selic estável em 13% | R$ 33.946 — 13,00% a.a. | R$ 33.946 — 13,00% a.a. |
| Selic cai para 9% | R$ 33.946 — 13,00% a.a. | R$ 29.915 — 11,58% a.a. |
| Selic sobe para 17% | R$ 33.946 — 13,00% a.a. | R$ 38.946 — 14,56% a.a. |
Repare na primeira linha. Reinvestindo exatamente à taxa contratada, os dois papéis entregam o mesmo centavo — R$ 33.946. Não é coincidência nem arredondamento: é a definição de taxa contratada. O cupom nunca foi retorno adicional. Sempre foi cronograma.
Agora as outras duas. A coluna do zero-coupon não se mexe — 13,00% nos três cenários, porque não há nada para reinvestir. A coluna do cupom oscila quase três pontos percentuais. Na queda, o cupom sequestra 1,42 ponto por ano: você contratou 13% e levou 11,58%. Na alta, ganha 1,56 ponto.
Então o título com cupom não é mais seguro. É uma posição direcional em juros. Você está comprado em alta da Selic — e faz sentido montar isso se essa for a sua leitura. O que não faz sentido é montar essa posição achando que está reduzindo risco, porque quem te vendeu a ideia chamou o cupom de renda passiva e não de aposta.
O cupom que você gastou
Tudo acima assume que você reinveste cada cupom, religiosamente, por vinte semestres seguidos. Vale perguntar com que frequência isso acontece.
O dinheiro cai na conta corrente junto com o salário, sem etiqueta, sem cerimônia, e vira jantar. Ninguém decide parar de investir — a decisão nunca chega a ser tomada. Ela simplesmente não acontece, seis meses de cada vez, e o efeito de juros compostos que era o ponto inteiro do plano vaza por um ralo que a planilha não mostra. Não tenho número para isso, e desconfio de quem tiver — o Tesouro Direto não publica estatística de reinvestimento de cupom. O que dá para dizer é que o desenho do produto empurra numa direção só. É o tipo de erro que o Morgan Housel descreve: comportamento supera inteligência, e o cupom é uma armadilha comportamental disfarçada de vantagem técnica.
O zero-coupon não te dá essa chance. Não tem nada para gastar até 2035.
O imposto que ninguém coloca na planilha
Volte à primeira linha daquela tabela — a da Selic estável, em que os dois papéis entregam R$ 33.946 idênticos. Mesmo risco de crédito, mesmo emissor, mesmo vencimento.
Líquidos, eles não são iguais. E a diferença não é pequena.
O IR do Tesouro Direto segue a tabela regressiva, contada a partir da data da compra. Num título com cupom, cada pagamento é tributado na chegada, na alíquota vigente naquele momento. A NTN-F paga em 1º de janeiro e 1º de julho; supondo compra numa data de cupom:
| Cupom recebido em | Dias desde a compra | Alíquota de IR |
|---|---|---|
| 6 meses | 181 | 20% |
| 12 e 18 meses | 365 e 546 | 17,5% |
| 24 meses em diante | 730 e além | 15% |
O primeiro cupom escapa da faixa mais cara por um dia: o semestre de calendário tem 181 dias, e os 22,5% valem até 180. Quem compra no meio do semestre não escapa — o cronograma depende da data da compra.
Dois problemas moram aqui, e o segundo é muito pior que o primeiro.
O primeiro é óbvio: os primeiros cupons pegam alíquota de curto prazo. O papel de dez anos que você comprou para segurar até o fim paga 20% no primeiro cupom, como se fosse aplicação de poucos meses. O título é longo; o cupom, para o Leão, não é.
O segundo é o que realmente machuca. Todo cupom chega líquido, e só o líquido volta a render. Você não perdeu 20% de R$ 580 uma vez — você perdeu os nove anos e meio de juros compostos que aqueles R$ 116 teriam gerado. E o que sobrou, ao render, é tributado de novo. O zero-coupon não faz nada disso: o valor integral compõe intocado por uma década e encontra o Leão uma única vez, a 15%, no vencimento. Não é isenção. É diferimento — e diferimento, ao longo de dez anos, é dinheiro de verdade.
Mesma taxa contratada, mesmo retorno bruto, Selic parada:
| Zero-coupon | Com cupom | |
|---|---|---|
| Bruto em 10 anos | R$ 33.946 | R$ 33.946 |
| Líquido em 10 anos | R$ 30.354 | R$ 28.862 |
| Retorno líquido | 11,74% a.a. | 11,18% a.a. |
R$ 1.491. Cerca de 4,9% do patrimônio final, evaporados num cenário em que os dois títulos renderam exatamente a mesma coisa antes do imposto.
E esse custo não depende das faixas. Mesmo que todo cupom fosse tributado no piso de 15% — o cenário mais generoso que existe para o papel com cupom — a conta ainda seria de R$ 1.332, meio ponto percentual ao ano. A tabela regressiva agrava o problema. Não é ela que o cria.
E é aqui que o argumento inteiro vira. O risco de reinvestimento é uma aposta: se os juros subirem, você ganha, e a tabela mostra isso. O imposto não é aposta. Você paga na alta, paga na queda, paga na estabilidade. Paga inclusive no cenário em que a sua leitura de juros estava certa — a conta simplesmente sai do lucro. Sob as regras vigentes, não existe cenário em que o cupom seja fiscalmente eficiente na acumulação; existe apenas aquele em que o ganho na taxa foi grande o bastante para pagar o pedágio e ainda sobrar. A única reviravolta plausível seria uma alta futura do IR sobre renda fixa, que premiaria quem pagou cedo — uma aposta tão direcional quanto a outra.
Ninguém coloca isso no vídeo de renda passiva.
Onde esse argumento não se aplica
Nada disso torna o título com cupom um produto ruim. Torna-o um produto com um cliente específico, que provavelmente não é você ainda.
Se você vive do portfólio, a lógica inverte por completo. O cupom deixa de ser dinheiro que escapa da capitalização e passa a ser dinheiro que você usa — e o custo fiscal vira o preço de não precisar vender ativo em mercado ruim. Isso é proteção genuína contra sequência de retornos. Se você tem visão firme de alta da Selic, o cupom é o instrumento correto para expressá-la; só chame a posição pelo nome. E se você pode ser forçado a vender antes do vencimento, a duration menor tem valor real, porque o zero-coupon de dez anos apanha feio numa alta de juros.
O que define o lado certo da linha não é o seu perfil de risco. É uma pergunta de duas partes: você precisa desse dinheiro nos próximos dez anos, e você vai segurar até o vencimento? Quem está acumulando responde “não” e “sim” — e para essa pessoa o cupom é custo puro, cobrado em três moedas: imposto antecipado, risco de reinvestimento e a tentação semestral de gastar.
A fronteira entre acumular e viver de renda, aliás, é bem menos nítida do que os dois substantivos sugerem. Quase ninguém acorda um dia e muda de lado.
O que isso realmente significa
A pergunta “qual título paga o cupom mais alto?” não tem resposta errada. Ela é a pergunta errada — mede o cronograma e chama o resultado de retorno. O cupom decide quando o dinheiro chega, quem cobra imposto no caminho e qual risco você carrega até 2035. Nenhuma dessas três coisas aparece na comparação que a maioria faz.
Se você ainda está construindo patrimônio e não pretende vender antes do vencimento, a escolha padrão é o zero-coupon — Tesouro Prefixado ou Tesouro IPCA+ Principal. Não porque a taxa seja melhor, mas porque ela é a mesma e o custo é menor. Isso conversa direto com a lógica dos juros reais brasileiros: num país que paga juro real alto, o valor está em deixar a capitalização trabalhar sem interrupção — e cada cupom é uma interrupção, com o Leão parado na porta.
Vale modelar em vez de acreditar. Rode os dois caminhos na Calculadora de Aposentadoria com o seu horizonte real e veja o que a diferença de 0,56 ponto ao ano faz em vinte anos — e depois pergunte-se em que ano, exatamente, você deixa de acumular e passa a precisar do fluxo. Essa data, e não o tamanho do cupom, é o que decide qual papel você deveria estar comprando.
Este artigo tem finalidade educacional geral e não constitui recomendação de investimento. Os valores são ilustrativos e assumem uma taxa contratada hipotética de 13% ao ano, compra numa data de cupom, permanência até o vencimento e reinvestimento integral dos cupons — premissas que dificilmente se realizam com exatidão. O modelo assume ainda que os cupons reinvestidos só encontram o imposto no décimo ano — premissa generosa com o título com cupom, já que cada reaplicação reinicia a tabela regressiva: o custo real tende a ser maior que o calculado aqui. As alíquotas são as vigentes em 2026. Confirme as regras junto ao Tesouro Direto e consulte um profissional qualificado antes de decidir.